A Droga na Sociedade

Não jogar com o risco

Jul 18

Do ponto de vista médico, as pessoas que fumam maconha podem estar em três grupos: os usuários sociais ou ocasionais (cujo consumo não traz complicações ao indivíduo ou à sociedade); os usuários com quadro de abuso (já com conseqüências negativas advindas ao uso, como baixo rendimento escolar, dificuldades familiares e alterações psicológicas); e os usuários com dependência (necessita da maconha para relaxar e, sem ela, não se sente bem).


Atualmente, não conseguimos identificar quais são os fatores que levam uma pessoa a se fixar em um desses estágios. 

Sabemos que o consumo da maconha é uma condição necessária (só vai ser usuário quem fumar maconha) e que, quanto mais fácil for obtê-la, maior será o risco de a pessoa se tornar usuária.

Cada uma das situações acima necessita de uma avaliação diferente e de condutas específicas. É óbvio que o usuário ocasional não necessita de tratamento; não é preciso ser médico para entender que a pessoa que apresenta dependência precisa ser tratada. Isso vale para usuários de maconha, cocaína, álcool e (perdão ao leitor desavisado) tabaco.

Diagnóstico em medicina é um procedimento sério que norteia o tratamento. É natural que alguém que tenha um uso social de maconha diagnostique-se como tal. Mas não é natural que a pessoa dependente assim se considere. Funciona exatamente como o álcool: o alcoolista é, geralmente, o último a admitir a gravidade do problema.

Eu penso que a apresentadora Sonia Francine errou ao admitir publicamente que fuma maconha, em reportagem da revista "Época". Antes de justificar minha posição, acho necessário pontuar que o meu conhecimento sobre a apresentadora era bastante restrito, mas que sua figura era - e continua sendo - simpática. Além disso, tanto na reportagem como em entrevistas posteriores, entendi que o objetivo de Soninha (peço permissão para usar essa forma carinhosa) era estimular o debate, e não fazer propaganda da maconha.

A começar pelo título da reportagem ("Eu fumo maconha"), o que é preocupante é que essa forma de discussão de um tema tão importante favorece a banalização. Não cabe a mim fazer diagnósticos nessa situação, especialmente porque nem conheço a Soninha. Tenho tudo para acreditar que ela é uma usuária social, ocasional, como ela mesma se apresenta. Mas quem é a Soninha? É uma profissional, competente, responsável, que trabalha com um público definido, os adolescentes. Mais do que isso, seus atos são apreciados com atenção, desde a forma como se veste e fala até o modo como se comporta.

Não me sinto à vontade para comentar sua demissão da TV Cultura, visto que o meu treinamento é da área da saúde. Porém há um momento em que o que o profissional expressa deixa de ser apenas o que ela pensa: reflete o que pensa a instituição que ela representa. Com toda a pluralidade desta Folha, eu não saberia dizer o que aconteceria se um dos colunistas da página A2 (Opinião) - na sua mão esquerda neste momento - trouxesse opiniões pró-terrorismo ou pró-racismo, contrárias à coluna vertebral do jornal.

Na minha opinião, as convicções particulares de Soninha são secundárias se tomadas em relação às mensagens que ela deve passar, na posição de liderança e de credibilidade que ela ocupa, representando a instituição, que, em última instância, é alimentada com nossos impostos. Acho que ela não tem o direito, de estando nessa situação, sugerir comportamentos que possam levar a danos, como a dependência de drogas. Eu sei que ela não visa a isso, que não é esse o objetivo de seu questionamento, mas esse é um resultado possível quando o tema é debatido de forma superficial. 

Há, por último, um fator mais importante ainda: a invasão de sua privacidade familiar. tendo eu passado por situações próximas no passado, quando em entrevistas semelhantes fui abordado sobre temas nevrálgicos em relação a meus familiares - o uso de drogas, por exemplo-, e tendo avaliado essa experiência como péssima, eu penso que os familiares da Soninha deveriam ser poupados ao máximo da exposição. 

Penso que, ao fazer declarações desse teor apimentado, Soninha deveria resguardar suas filhas e sua mãe, que provavelmente muito se orgulham dos predicados de ousadia, responsabilidade e profissionalismo da apresentadora. Mas elas, como o público que a assiste, devem ser preservadas de suas convicções pessoais quando expostas da forma com está sendo feita. Como no ditado, "o exemplo não é a melhor forma de ensinar algo para alguém. É a única". 
Arthur Guerra de Andrade, 47, coordenador do curso médico da Faculdade de Medicina do ABC e professor associado Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.
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Fonte: Folha de São Paulo

Ler 3347 vezes Última modificação em Terça, 18 Julho 2017 08:58
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